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Paulo Rafael eletrificou o som de Alceu Valença e foi o expoente da Psicodelia Pernambucana

sábado, 04 de setembro de 2021

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Paulo Rafael faleceu no último 23 de agosto carregando o título de guitarrista de Alceu Valença e a fama de músico que eletrificou o som do cantor e compositor de São Bento do Una (PE). No entanto, esse herói da guitarra – apelido que o levou a figurar a seleção do livro “Heróis da guitarra brasileira”, de Leandro Souto Maior e Ricardo Schott – era muito mais do que isso. Paulinho, como os amigos gostavam de chamá-lo, foi um dos responsáveis por um movimento no qual beberam todos que passaram por Recife na primeira metade dos anos 1970 e tem dois nomes: Udigrudi e/ou Psicodelia Pernambucana.

Tudo começou em novembro de 1972, quando o Diário de Pernambuco publicou uma nota divulgando um evento musical que aconteceria dali a dois dias, a 202 km do Recife. O jornal avisou que a organização prometia “34 caixas de som, 10 amplificadores delta” e que a música  seria “transmitida por 16 microfones”. Organizado por integrantes de diretórios acadêmicos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Feira Experimental de Música rolaria no imenso palco de Nova Jerusalém. No teatro ao ar livre localizado no distrito de Fazenda Nova, município de Brejo da Madre de Deus, desde 1968 é encenada anualmente a “Paixão de Cristo de Nova Jerusalém”, uma peça teatral escrita por Plínio Pacheco em 1956 que conta os últimos passos de Jesus na Terra. A Psicodelia Pernambucana começou a tomar forma ali, naquele festival inspirado pelo Woodstock, mas adornado pelas colunas estilo romanas do teatro.

Passaram pelo palco Lula Côrtes, Marconi Notaro, Marco Polo, Flávio Lira (que assinava como Flaviola), o grupo Nuvem 33 (de Otávio Teremim e Tiago Araripe) e, juntos num mesmo show, o baixista Almir de Oliveira e o guitarrista Ivson Wanderley, o Ivinho. O movimento ganhou nome anos depois, quando o jornalista paraibano radicado no Recife José Teles o chamou de Udigrudi, uma corruptela do termo underground, usado para designar as manifestações artísticas que estavam à margem (ou a favor da contracultura) e que dava nome à coluna assinada por Luiz Carlos Maciel no jornal O Pasquim, considerada a Bíblia de todo maluco que se prezasse.

Um mês depois do evento, Almir e Ivinho estrearam como banda ao lado do vocalista Marco Polo, o backing vocalista Raffles, o percussionista Agrício Noya e o baterista Israel Semente. Após rodar pelo Nordeste sem conseguir ganhar dinheiro, a Tamarineira Village – nome inspirado em um hospital psiquiátrico de Recife (Tamarineira) e à vila de comerciários da cidade (Village) – substituiu Raffles pelo guitarrista Paulo Rafael, que havia tocado no grupo The Jopens, mais voltado para a onda iê-iê-iê do rock, e na já psicodélica Phetus ao lado de Zé da Flauta e do vocalista Lailson de Holanda (essa banda emergiu da decepção de Lailson depois que Lula Côrtes o abandonou logo após o lançamento do “Satwa”, álbum produzido pela dupla).

Israel Semente, Zé da Flauta, Alceu Valença, Paulo Rafael, Dicinho, Agrício Noya e Zé Ramalho (Foto: divulgação)

Por sugestão de executivos da gravadora RCA, o Tamarineira Village trocou o nome para Ave Sangria, lançou um álbum em 1974 e se tornou um dos principais expoentes da psicodelia pernambucana. Um ano antes, Paulo Rafael foi convidado a tocar no LP “No Sub Reino Dos Metazoários”, de Marconi Notaro, e, já em 1974, no “Flaviola e o Bando do Sol”, de Flaviola. Ele ainda participou da produção – junto a Zé da Flauta – de “Paêbirú”, LP de Zé Ramalho e Lula Côrtes, gravado em 1974, lançado no ano seguinte e que teve grande parte da tiragem perdida em uma enchente que alagou a sede da gravadora Rozenblit, responsável por todos esses lançamentos.

Paulo Rafael não esteve na Feira Experimental de Música, mas de todos do Udigrudi acabou sendo o músico que despontou fora de Recife, no chamado “Sul Maravilha”, onde a cena artística era mais favorável e para onde “desceu” acompanhando Alceu Valença, em 1975, no Festival Abertura, da TV Globo, junto a Zé Ramalho (viola), Lula Côrtes (tricórdio), Ivinho (guitarra), Israel Semente e Agri?cio (percusso?es) e Ze? da Flauta (flauta). No caminho para o Rio de Janeiro, sofreu um acidente de ônibus que, com ele contando, de trágico virou cômico. Reproduzo abaixo um trecho retirado de um dos capítulos de uma biogafia de Zé Ramalho na qual estou trabalhando:

“Faltando meia hora para chegar na capital do Sergipe, o ônibus caiu cerca de 14 metros em uma ribanceira. Por sorte havia chovido e tinha muita lama no local, o que amorteceu o impacto das rodas sobre o mato no qual ele se enfurnou. As luzes se apagaram, ficando só as de emergência acesas, e todo mundo saiu do seu lugar. Entre gritos e choros, a primeira coisa que Paulo fez foi procurar seus óculos e começar a incentivar os amigos a saírem dali antes que o veículo pegasse fogo como nos filmes que ele estava acostumado a ver. Zé da Flauta, que também usava óculos, foi parar sentado no lugar onde se coloca os pés, com uma perna no banco e a outra, no corredor, e avisou que não conseguia se mexer porque a bagagem de Israel teria caído por cima dele. Ao dar um chute no monte de panos, o saco gritou: ‘Ai!’ Tratava-se de uma senhora, para quem ele pediu desculpas, perguntando se ela havia sofrido algo. ‘Só seu chute, seu idiota!’, respondeu a mulher que ele mal enxergava. Não houve feridos graves e, da banda, ninguém se machucou muito”.




Paulinho me contou também que, por causa de um LSD fornecido pelo fotógrafo Mario Luiz Thompson, também falecido recentemente, ele assistiu não exatamente à briga de Zé Ramalho com Alceu Valença no palco do show “Vou Danado pra Catende”, mas um espetáculo cinematográfico: depois de uma turnê no Rio em 1975, Alceu levou a banda para São Paulo, mas se desentendeu com Zé por causa de uma fita que o amigo gravou usando sua banda sem pedir sua permissão. Quando o paraibano bateu com o violão no chão – ao estilo Sérgio Ricardo no festival da canção – Paulo “viu pdaços do instrumento voando em câmera lenta”. Outro episódio hilário na voz do guitarrista aconteceu na Paraíba, em 1976, quando Zé o convidou para auxiliá-lo na Coletiva de Música da Paraíba. Ao chegar em João Pessoa, Paulo viu a faca com a qual o cantor cortaria o cabelo em cena, e se assustou: “Que porra é essa, Zé? Vai me matar?”

Daquela metade dos anos 1970 para cá, foram quase 50 anos acompanhando Alceu nos palcos e estúdios, não só como guitarrista, mas também como diretor musical. E, explicando a fama, colocando peso nos frevos, maracatus e cirandas do pernambucano que se gaba de não ouvir rock. E, também, resgatando o Ave Sangria sempre que possível para algum novo show ou projeto. Em 2019, três expoentes da formação clássica – Marco Polo (composições e voz),  Almir de Oliveira (voz, guitarra base, composições) e Paulo Rafael (guitarra solo e viola) – lançaram o segundo álbum da banda, “Vendavais”, com canções compostas entre 1969 e 1974 e nunca registradas em estúdio.

São muitas (e divertidas) histórias que Paulo Rafael deixa. Cabe dizer que, com ele, vai embora uma grande potência da música brasileira, mas fica o legado. Que seus acordes e sua trajetória estejam sempre entre nós em discos, vídeos e escritos.


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