Na Ponta do Disco

Novos Sons: caminhos e encruzas de Kennya Macedo

quinta, 30 de novembro de 2023

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Ouça o álbum aqui

Kennya Macedo é uma artista que merece atenção redobrada. 

Ainda que para muitos seja um nome novo dentro da cena musical independente, Kennya tem uma trajetória já bem consolidada. 

Kennya lançou seu EP “Caminhos” em maio desse ano, mas a artista já traz uma bagagem extremante rica e recheada de influencias e experiências que remontam a 30 anos de vivências na estrada musical. 

Seu EP nada mais é do que o amalgama dessa rica trajetória que se mostra de forma potente pela impressão vocal única de Kennya e a escolha das seis canções que compõem esse EP de estreia.

Tivemos a oportunidade de entrevistar a artista para conhecer mais da sua trajetória e ela nos contou suas influencias e como decidiu só agora, depois de décadas de carreira, gravar o seu EP.

Nessa entrevista exclusiva, Kennya nos conta que começou sua trajetória como backing da banda “Gueto” e a Orchestra Paulista de Soul e que suas primeiras influências estiveram muito imbricadas pelo samba-rock e pelo soul. Começou muito cedo aos 17 anos mas desde sempre se encontrou no palco como lugar de expressão artística e subjetiva. Kennya nos conta com como Paulo Bira foi uma constante em sua trajetória e que esteve praticamente do começo até seu EP temporão na gravação e na produção musical junto com Eron Guarnieri. 

Capa do EP Caminhos de Kennya Macedo.

Pedindo Passagem

O EP tem exatamente o sentido estabelecido por seu nome: se chama “Caminhos”, mas poderia muito bem ter se chamado “Encruzas” como afirma a própria artista. 

A faixa inicial “Canto 1” é um pedido de licença à ancestralidade e remete ao disco antológico “Canto dos Escravos” (Eldorado) gravado por Clmentina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela. Se formos realmente parar para entender tal álbum, ele permanece como ponto de resgate de uma cultura afro-diasporica profunda dos vissungos que aqui se ressignificaram como cantos de trabalho. Dessa forma, utilizando da composição de ordem aparentemente simples Kennya já estabelece camadas histórica profundas da experiencia diaspórica negra no Brasil e convoca a ancestralidade como forma de justamente pedir licença aqueles que vieram antes de nós. Mas a proposição é mais complexa. Envolve o sentido perene da construção que pensa o presente pela relação sempre dialética entre o passado e o futuro. Sem ter que se colocar como conceito complexo, o sentido do Adinkra “Sankofa” que está tatuado no ombro da artista (e se mostra no lindo clipe dirigido por Eris Colors) é base para o que ela mesma define como sua concepção de afro-futurismo: voar para frente sem esquecer de ir buscar o que (“é nosso”) e ficou no passado -  a própria expressão do pássaro que simboliza tal Adinkra.

Faixa a Faixa

Barriga Cheia”, composição de Fernando França Pereira, era uma canção que Kennya queria gravar a tempos e expõe as contradições das distancias sociais e econômicas perante aqueles que estão “chorando embaixo de um monte de grana” enquanto um monte de gente vive “pastando”, “comendo grama”. A canção é bastante emblemática em uma época de desabafos seletivos em redes sociais, muitas vezes feitos por pessoas com condições econômicas avantajadas.

Já “O Ferroviário”, canção do álbum de Wando de 1973 (Composta por Cezinha e Cirus)  ganha uma nova roupagem lindíssima no arranjo de Bira e na voz de Kennya. A canção mostra o cidadão precário que parece ter saído de um filme de Nelson Pereira do Santos e trabalha arduamente para conseguir no carnaval poder se realizar em toda sua potência como mestre sala na avenida da vida.

Altas Madrugadas”, composição de Juliano Holanda, mostra o flerte de Kennya com a nova cena musical pernambucana que gerou nomes como Almério, Martins e Isadora Melo e também nos brinda com um arranjo e vocais de uma canção que por si já é assustadoramente bela, e na versão do EP de Kennya transmuta-se em algo de se arrepiar dos pés ao couro cabeludo.

O EP (infelizmente) se encerra em apenas mais duas canções, “Moça” de Juliano Holanda e Guitinho da Xambá e é um verdadeiro hino para as Padilhas e Sete Saias da encruza com uma quebra de tempo do agogô fantástica no meio da canção. E para finalizar em grande estilo “Viva São Jorge Guerreiro”, de domínio popular – canto de Jurema para o cavaleiro Patacori e São Sebastião. 

Saudar e bater cabeça à Música

Ao final do álbum temos um vislumbre do sentido polissêmico da obra de Kennya. E também seu amor a canção e principalmente ao palco. E quando tivemos a oportunidade de ver Kennya Macedo ao vivo com seu time de artistas e percussão somos transportados a um outro universo em que os batuques, vozes e instrumentos nos envolvem em sentidos, ritos e passagens.

Kennya me falou em sua entrevista como suas influências são tão variadas como o rock pesado da década de 1970 até pontos de macumba do Catimbó do Maranhão e da Jurema de Pernambuco. E disse em determinado momento “acho que o rock envelheceu mal”. Na verdade o rock não envelheceu, o que envelheceu foram as pessoas e as categorias. A música não envelhece e entre um atabaque, um baixo groovado, uma guitarra distorcida e o vocal de Kennya Macedo está tudo que precisamos para “bater cabeça” e girar ao sentido sagrado da Música.






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