Escambo Musical

Manfredo Fest - Brazilian Dorian Dream (1976)

terça, 26 de julho de 2022

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O começo gótico do disco pode causar certo estranhamento em ouvintes desacostumados a timbres menos tradicionais. Os acordes em clusters descendentes de Brazilian Dorian Dream – a música que inaugura o disco homônimo de Manfredo Fest (1936-1999) – tocados em uníssono são avassaladores! A levada em bossa nova é preenchida por um tema vocalizado, com saltos pouco convencionais, no qual, todos eles obedecem o pensamento de um instrumentista hábil, mas que reconhece o predicado mais potente de uma melodia: sua capacidade de ser cantabile

O ostinato criado por Thomas Kini (baixista) na segunda faixa – Facing East – nos leva para uma superfície bem menos agitada do que antes. Agora, notas mais longas conduzem o ouvinte. Convenções bastante tradicionais fluem com muita leveza pela música. Nada de exageros. A parte B apresenta notas um pouco fora da harmonia, mas longe de qualquer pedância.

A introdução de Jungle Cat faz lembrar, bem de perto, coisas do Yes, Genesis e até mesmo Gentle Giant. A progressão ascendente tem um quê progressivo reconhecido sem grandes esforços pelos fãs do gênero. A mais bossa-nova das músicas é That’s What She Says. Tanto o tema quanto as convenções são caras ao gênero mundialmente consagrado. Manfredo Fest foi um dos principais instrumentistas e difusores da bossa-nova mundo afora. Atenção aos improvisos do tema: várias boas-notas por ali.

A Transilvânia se faz presente no início de Slaughter on Tenth Avenue e a melodia ecoa na primeira música do disco. A segunda frase parece uma velha conhecida nossa. A sensação de ouvi-la na TV aberta é grande, no entanto, sigo pesquisando sobre sua origem ou semelhança em outras músicas. Frank Zappa parece ser chamado à baila em algum por aqui. Se você é fã do maior roqueiro careta dos últimos tempos, certamente, irá identificar o trecho ao qual me refiro.

Who Needs It merece destaque. Cada nota, cada acentuação, cada frase dos improvisos são pensadas para que o tema seja um primor! As articulações criadas por Alejo Poveda (bateria) mostram que a desenvoltura para tocar bossa-nova não é coisa apenas de brasileiro. Em diversas músicas a voz conduz o tema principal, mas nesta a sua participação é sem igual. Saltos não muito simples de serem feitos são facilmente realizados pela voz em uma precisão absurda. Os improvisos, mais uma vez, devem ser escutados repetidas vezes e com atenção redobrada.

O timbre do Fender Rhodes toma conta da última música do disco. Braziliana Nº1 é o mais lânguido de todos os temas. Também pudera, depois de muita energia é hora de arrefecer e encerrar os disco. A voz como principal instrumento encontra o espaço preciso ao longo de todo o álbum, mas aqui a coisa é ainda mais acentuada. O improviso de baixo – o único de todo o disco – é de arrasar. Articulação e bom gosto são os principais elementos do solo. Aos poucos, o tema ganha proporções gigantescas que deságuam em um final sossegado e magistral.


Manfredo Fest – piano elétrico, sintetizador.
Thomas Kini – Baixo Elétrico / Alejo Poveda – Bateria
Manfredo Fest - Brazilian Dorian Dream (Full Album Stream)


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