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‘Eu sempre acreditei na liberdade’: Odair José conversa com o IMMuB sobre sua música e o Brasil
Por Tito Guedes e Ivan Lima

quinta, 29 de outubro de 2020

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Aos 72 anos de vida e mais de 50 de estrada, Odair José segue produzindo e reinventando seu som. Um dos maiores vendedores de discos nos anos 1970, dono de hits memoráveis como “Eu vou tirar você desse lugar”, “Eu, você e a praça” e “Deixe essa vergonha de lado”, ele transita agora pela sonoridade pop/rock dos seus últimos trabalhos, “Dia 16”, “Gatos e Ratos” e “Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio”, que o aproximaram do público jovem e resgataram para o seu repertório a palavra que mais combina com sua obra: liberdade. 

O IMMuB realizou uma entrevista com o cantor e compositor por videoconferência em conjunto com Ivan Lima, pesquisador de música brasileira dono do canal “O Que Cresci Ouvindo”, que produziu sua dissertação de mestrado com o tema “Ame, assuma e consuma: canções, censura e crônicas sociais no Brasil de Odair José (1972-1979)”.

Durante a conversa, Odair relembrou passagens emblemáticas de sua carreira, como o controverso e hoje aclamado disco “O Filho de José e Maria”, falou sobre a pecha de “cafona” que recebeu por parte da crítica e adiantou os próximos planos de sua carreira. 

Leia a conversa completa abaixo! 

IMMuB: Nos anos 1970, assim como outros cantores românticos e populares da época, você foi tachado como “cafona” ou “brega”. Como você lidava com isso?

Odair: Olha, na realidade, na década de 1970 essa palavra “brega” não era usada para rotular um estilo musical, isso veio depois, nos anos 1980 e 1990. Em 1970 havia essa coisa do “cafona”. Eu não me lembro de ter sido chamado de cafona. Eu era um cantor popular, fazia muito sucesso, vendia muito disco, minhas músicas eram muito tocadas em rádio naquela época - eu atingia a massa de uma maneira muito forte. Por estar muito ocupado com meu trabalho, eu não tinha tempo para perceber esse preconceito em relação à minha música. Só fui perceber isso nos anos 1990. 

IMMuB: E como era a sua relação com os outros artistas que também foram rotulados dessa forma, como Fernando Mendes, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano? Vocês se enxergavam como parte de um mesmo grupo, chegaram a pensar em parcerias ou projetos conjuntos?  

Odair: Na verdade, o Fernando Mendes veio depois de mim. Eu me lembro dele tentando vender disco quando eu já estava fazendo sucesso. Ele era até um rapaz muito acanhado, a gente dava força pra ele dizendo “ó, toca o disco desse cara, ele é legal, e tal”. O Agnaldo veio antes de mim, então sempre convivi com ele ou com Waldick Soriano. Não eram pessoas do meu universo de amizade, mas eu cruzava com eles no rádio. Mas quando você está nesse “metiê”, você cruza com todo mundo. Eu cruzava de Angela Maria a Ataulfo Alves, Dorival Caymmi a Agnaldo Timóteo. 

Ivan Lima: Eu queria fazer outra pergunta em cima dessa: houve algum pedido de produtor ou da gravadora sugerindo que existisse alguma parceria entre você e algum artista como Fernando Mendes, por exemplo, com quem você chegou a ter um nicho de público parecido em determinado momento? Estou perguntando isso seguindo a lógica de que nos anos 1970 existia uma iniciativa das gravadoras em juntar artistas do mesmo segmento, como aconteceu com Chico Buarque e Caetano Veloso em 1972. 

Odair: Não, veja bem, não houve isso. A gente não tinha essa de cantar juntos, isso não existia na cabeça da gravadora e nem na dos artistas. Eu entendi o que vocês estão falando, porque existia essa coisa, como o do Chico e do Caetano. Mas esses artistas eram de outro universo, de um movimento mais ligado ao teatro. Talvez fizessem isso até para criar o movimento, porque esses outros artistas não vendiam disco. A nossa realidade era quinhentos mil, a deles era três mil. Esses “monstros sagrados” não vendiam, eles trabalhavam dentro de um segmento de MPB, de pouco público e pouca vendagem, então faziam esse movimento, mas era uma coisa mais deles, na minha área não tinha essa pegada. 

IMMuB: Você viveu no auge da repressão do governo militar. Como foi sua experiência com a censura? 

Odair: Olha, era muito desagradável essa coisa da censura, do “proibir”. Eu, por exemplo, acompanhei a mudança de governo no Brasil em 1964 e me lembro do governo militar subindo na marra, tomando conta de tudo. E depois eu fui pro Rio de Janeiro, morei em casas de estudante. Nesse universo estudantil, a gente já sofria com esse sistema de opressão do governo. Em 1972, com “Eu vou tirar você desse lugar”, que foi um disco que vendeu 1 milhão de compactos naquele ano, foi a primeira vez que tive contato com a censura. Fui chamado, através de uma carta, para um departamento de censura do Governo Federal que havia ali na Senador Dantas, e através dessa carta fui saber do que se tratava. O cara disse pra mim que a música não tinha passado pelo crivo da censura, que não era de bom tom, naquele momento, uma música que dissesse “vou tirar você desse lugar”. E que eu deveria prestar mais atenção no que eu iria escrever dali pra frente. Eu expliquei a ele que a música se referia a uma prostituta, uma moça da noite. Ele respondeu: “Pior ainda! E a partir de agora todos os discos que você vier a fazer, se é que vai fazer, terá de ser avaliado antes”. A partir daquele momento, até o final da censura no Brasil, eu tive que mandar todas as músicas pra lá. 


IMMuB: Você sempre foi um artista que se posicionou e provocou a sociedade de forma muito honesta com relação a temas como uso de drogas, religião e os costumes de uma forma geral…

Odair: É, eu acho até que mais tarde, com essa história de “brega”… eu não me sinto muito confortável quando dizem que meu trabalho é “brega”, pois vejo como uma coisa de mau gosto. Acho que nem tudo que eu fiz tem muito bom gosto, mas também não acho que tudo que eu tenha feito possa ser definido como “brega”. Mas acho que vem justamente daí, dessa coisa de falar da rua, do dia a dia. Eu falei, por exemplo, da prostituta, da empregada, da pílula, falei da maconha, da opção sexual. Tudo isso incomodava a censura. Eu cheguei a ouvir de um cara, quando eu perguntei o que eu poderia fazer para liberar uma canção, a seguinte frase: “o que está proibido é a ideia. Você não precisa mudar nada, o que não pode é pensar nessas coisas.” Era uma coisa muito desagradável. Todo mundo fala da pílula [música “Uma vida só (pare de tomar a pílula)", lançada em 1973], mas essa música foi proibida, ela nunca foi liberada. Só pôde circular nas duas primeira semanas, mas depois foi proibida qualquer execução, não só no Brasil mas em toda América Latina. Quando eu fiz o disco “O Filho de José e Maria”, que era uma obra de 18 músicas, eu só pude lançar 10, porque 8 foram censuradas. Então houve muitas dificuldades, creio que justamente por tocar nesses assuntos “sociais”. Era aquilo: eu tirava de baixo do tapete aquilo que eles estavam escondendo. E isso é característica de uma sociedade hipócrita que existe até hoje. Porque a censura oficial acabou, mas essa censura hipócrita da sociedade está cada vez pior. Isso é uma palhaçada! E eu sempre bati nisso. É algo consciente. Quando eu fiz uma música para as empregadas, ser empregada doméstica não era uma profissão no Brasil, não havia legislação quanto a isso. Daí venha talvez essa coisa de dizer “ah, o cara é brega.” Por que isso me deixa desconfortável? Porque eu sinto muito preconceito. 

Ivan: Uma coisa interessante também. Eu fiz o meu mestrado sobre Odair há mais de 10 anos, na época muitos arquivos não tinham sido liberados ainda. Então encontrei muitos documentos na Colômbia, na Venezuela, que falam sobre essa questão. E uma coisa interessante foi da empregada doméstica. E acho que isso talvez tenha sido uma coisa, não só do Odair, mas desses cantoras, que considero absurdo serem denominados de “brega”. Em 1974, essa música já tinha sido liberada e o presidente Médici, que a gente sabe que foi o pior presidente da ditadura militar, regulamentou a legislação que dizia que a empregada era uma trabalhadora diferente, uma trabalhadora “familiar”. Isso só foi corrigido no governo de Dilma Roussef, pra você ver o tipo de marginalização que havia. Então acho que o Odair escolheu a empregada e outros personagens da cena comum - os verdadeiros brasileiros. E acho que a sua música, Odair, em muitos momentos, era uma música nua em uma sociedade tabu. Ela tirava a roupa da vergonha conservadora do Brasil e dizia: é assim o Brasil. Por isso que incomodou tanto. 

Odair: Em cima disso que você está falando, não sei se já disse isso antes, mas me veio agora à cabeça. Eu me sinto muito feliz hoje, e já me sentia lá atrás nos anos 1970, por ter tido a oportunidade e a obsessão de cantar música para o povo, o cidadão do dia a dia, da vida real, e pegar esse cidadão e jogá-lo na sala dos caras metidos à besta. O cara que anda na Paulista e não sabe o que acontece lá na Paraíba. Eu tenho uma música chamada “Forró de Ipanema”, em que eu tiro um sarro do pessoal de Ipanema e do Baixo Leblon, porque os caras não sabiam porra nenhuma do Brasil. Eu gostava de chegar nessas pessoas, que perguntavam “do que esse cara tá falando?” e dizer “eu tô falando da empregada, parceiro, tô falando do bar, do botequim, você quer o quê?”. Então eu me sinto muito feliz de ter defendido esse povo brasileiro, porque eu sou igual a eles - o povo da rua, o povo da fome, o povo da necessidade, o povo que não tem medo. E eu me sinto muito feliz de ter cantado para esse povo e jogado ele na sala de estar desses elitizados metidos à besta e babacas!

Ivan: E a gente se sente feliz de estar aqui falando com você. Essa felicidade é triplicada.


IMMuB: Isso mostra que a sua música incomodava não só a censura, mas também esse grupo elitizado que supostamente tinha a “cabeça aberta”. E queria perguntar exatamente sobre um episódio muito marcante que foi sua participação no Phono-73, um espetáculo ligado à MPB, em que você foi recebido com uma vaia da plateia. O que você lembra dessa experiência?

Odair: Isso aí tem várias coisas pra lembrar. Primeiro, eu tive a oportunidade de conhecer o Caetano Veloso, que eu só conhecia como artista, mas nunca havia convivido. Ele é além de todas as curvas - é inteligente pra caramba, um ótimo compositor, músico… Pra mim foi um privilégio. Mas quando isso aconteceu, eu sabia que o espetáculo ia acontecer, mas que eu não estava programado para aparecer. A gravadora Phonogram que ia organizar aqueles três dias de festa. Eu não estava preocupado com isso, não tinha tempo para aquilo, nem interesse. Foi quando eu recebi um telefonema do André Midani dizendo que o Caetano queria cantar comigo. Então vim pra São Paulo conversar com ele, ele disse que queria cantar “Eu vou tirar você desse lugar”. Eu sabia que aqueles artistas não eram os meus colegas, eram artistas de um outro universo, uma coisa mais fechada. E eu sabia que o público ali era muito nariz torcido, principalmente pro cara que fazia sucesso no rádio, que era eu naquele momento. E eu fui cantar. Não achei que fosse rolar uma vaia, mas quando Caetano me chamou, acabou rolando. Uma vaia que não parava nunca, a gente não tinha como cantar. O Caetano ficou meio bravo, discutiu no microfone, jogou no chão e saiu. E eu fiquei no palco sozinho com o violão. Então comecei a cantar umas três músicas, e quando ele voltou nós cantamos “Eu vou tirar você desse lugar” juntos. Depois disso eu saí de lá, o Midani me ligou e disse que achava que eu não estava me importando muito com o que tinha acabado de acontecer. Mas eu sabia que corria aquele risco, só o Caetano é que ficou chateado porque se sentiu desrespeitado pelo público. E o André disse: “mas isso é algo muito importante, vai ficar marcado na sua vida.” E ficou mesmo, nós estamos falando sobre isso agora, tantos anos depois. 

Caetano Veloso e Odair José ensaiam para apresentação no Phono-73 (Foto: Reprodução)

IMMuB: A sua música “Forma de sentir”, que toca no assunto da homossexualidade, é até hoje um ponto fora da curva na música brasileira. Ela foi feita numa época em que esse tema era tratado como galhofa ou de uma forma muito subentendida, e você conseguiu tratar desse assunto com muita clareza e ao mesmo tempo de maneiro muito poética. Como conseguiu chegar dessa forma a um tema que na época era tão mal visto? 

Odair: Eu também acho que a música foi bem feita naquele momento, mas ninguém gostou, as pessoas não ajudaram a propagá-la. Mas eu já nasci liberado, eu sou uma pessoa muito liberada, em todos os sentidos. Eu realmente acredito nisso. Eu sempre acreditei na liberdade das pessoas. Isso está muito claro no “FIlho de José e Maria”. Como compositor, eu gosto da clareza. Nessa questão da sexualidade, por exemplo. Isso não pode ser visto de forma preconceituosa. Eu sempre fui liberado nesse aspecto, e sempre falei sobre isso. Agora mesmo eu fiz uma música, que vai estar no meu próximo disco, em que o personagem descobre um outro desejo que ele não sabia que o parceiro dele sentia. Eu gosto de falar dessas coisas porque isso é o oculto do ser humano, é essa coisa de que o ser humano se esconde. 

Ivan: Essa é mesmo uma música muito emblemática, assim como a canção “O vírus”, que você fez sobre a Aids, no final dos anos 1980, quando já não existia ditadura, mas ainda havia censura. Apesar de não ter sido proibida, a música passou pela censura, então é um tema que também chocou. Por isso acho que são temas essenciais ao Brasil. 

IMMuB:Forma de sentir” é uma música que merecia uma regravação, porque está ficando cada vez mais atual. 

Odair: Tomara que aconteça, que alguém regrave... 


IMMuB: Você mencionou há pouco o disco “O Filho de José e Maria”, que hoje é considerado um disco à frente do seu tempo, mas que só foi digerido muitos anos depois. Na época do lançamento, houve censura e uma rejeição geral. Naquele momento, quem estava menos preparado para receber esse trabalho: o público ou o mercado? 

Odair: O Brasil estava despreparado para isso. Hoje, muita gente que é fã do Odair dos sucessos radiofônicos, sabe da existência desse disco, mesmo nunca tendo escutado, e odeia. Porque foi feito um trabalho em volta disso, para que ele fosse odiado. Hoje eu tenho várias opiniões sobre o que aconteceu. Primeiro, acho que o artista tem a obrigação de fazer arte, quem repete sempre a mesma coisa não faz arte, faz negócio. Em 1976, achei que já vinha fazendo uma coisa muito parecida, então resolvi fazer algo novo em 1977, como obrigação de artista, de compositor, porque o artista precisa correr risco. Só que eu achava que eu ia fazer um disco fenomenal. Ficou fenomenal, mas as pessoas não gostaram, disseram que era “péssimo”. Hoje, ouvindo o disco, vejo que péssimo é quem achou ele péssimo naquela época. Porque mais de quarenta anos depois ainda é um disco difícil de se fazer, é um trabalho único. Os próprios artistas, meu colegas, queriam que o disco fracassasse, porque se ele fosse em frente, eles também teriam que mudar os seus conceitos de trabalho. Além disso, antes mesmo do álbum sair, eu já lia coisas falando mal na imprensa. A gravadora se assustou com com esse projeto antes mesmo de ser finalizado. Tudo isso foi transmitido para o público, e ele passou  a odiar uma coisa que nem sequer conhecia. Mas hoje ele é muito bem visto e custa uma grana justamente porque não foram feitas muitas cópias na época.